Os monges de olhos verdes


    Em uma distante e alta montanha há um monastério com 100 monges que jamais falam uns com os outros, pois isso seria considerado uma falta totalmente inaceitável. Mas essa não é a única coisa estranha nesse mosteiro: os monges acreditam piamente que aqueles que têm olhos verdes são amaldiçoados, devendo abandonar o monastério durante a noite, para preservar a sacralidade do local. E essa sagrada regra jamais seria desobedecida pelos monges desta história.
Como os monges se recolhem para dormir ao cair da noite, em quartos separados e isolados, caso alguém abandonasse o mosteiro, isso só seria sabido na manhã seguinte, quando todos os monges se reunissem para o café da manhã em uma grande mesa.
    Além de jamais dizerem uma única palavra, nesse monastério não há espelhos ou qualquer outra coisa que possa refletir a imagem de uma pessoa, pois ver o próprio rosto é considerado uma violação gravíssima de um preceito sagrado. Portanto, impedidos de trocar sequer uma única palavra, alguém que tenha olhos verdes não tem como saber disso (pense que eles foram para o monastério ainda quando eram crianças muito pequenas, que sequer sabiam ver cores...). Assim, os monges viviam em paz, apesar de haver entre eles 10 com olhos verdes, que, claro, não sabiam disso.





    Mas um dia um montanhista aventureiro passou em frente à mesa onde os 100 monges tomavam o café da manhã. Inadvertidamente, comentou em voz alta “puxa, não sabia que pessoas com olhos verdes poderiam ser monges”.  Fez esse comentário e continuou seu caminho, sem dizer quantos eram os monges de olhos verdes. Todos ouviram esse comentário, mas mantiveram o sagrado silêncio absoluto.
Na primeira noite, nenhum monge deixou o monastério e, na manhã seguinte, todos os cem monges se encontraram no café da manhã. Nada aconteceu também na segunda noite: ninguém abandonou o monastério. Os dias foram se passando até que no décimo primeiro dia apenas os 90 monges que não tinham olhos verdes se encontraram para o café da manhã. Os outros dez companheiros haviam abandonado o monastério durante a noite.
    Como isso aconteceu?

    Suponha que houvesse um único monge de olhos verdes. Como ele conhecia a cor dos olhos de todos os seus companheiros, saberia que nenhum deles tem olhos verdes. Ouvindo o indiscreto comentário de montanhista, de que havia pelo menos um monge com olhos verdes, concluiria que este só poderia ser ele. Assim, ele abandonaria o mosteiro na primeira noite e não apareceria no dia seguinte para tomar café com seus silenciosos amigos.
    Caso houvesse dois monges com olhos verdes, cada um deles conheceria apenas um outro com esse estigma, ficando na dúvida se havia apenas um – o outro –  ou se seriam dois, sendo ele mesmo o segundo. Ora, se houvesse apenas um, este teria ido embora na primeira noite. Como na primeira noite ninguém foi embora, cada um dos dois monges de olhos verdes ficaria sabendo que não havia apenas um com esse terrível estigma, sendo ele o segundo. Assim, ambos abandonariam o mosteiro na segunda noite.
Continuando com esse raciocínio, se houvesse três com olhos verdes, estes abandonariam o mosteiro na terceira noite e assim por diante. Portanto, na décima noite os dez monges com olhos verdes foram embora.
Há várias versões desse problema, com chapéus – cada um pode ver a cor do chapéu dos outros, mas não a cor do seu próprio chapéu –, com placas nas costas e com algumas outras coisas ou características que todos sabem menos a própria pessoa. 

Mas há uma curiosidade: claro que antes do viajante fazer seu comentário, todos sabiam que havia pessoas com olhos, pois umas olhavam para as outras. Por que, então, o comentário do viajante criou uma nova situação? Eu não sei a resposta!






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